ARTE PELAS RUAS DE SÃO PAULO

PALCO PARA AS ARTES

    Entre os significados diversos que pode adquirir, a arte de rua é, por si só, significativa

Sentado em um pequeno banco em frente ao parque Mário Covas, na Avenida Paulista, Humberto Poubel faz desenhos de pontos turísticos emblemáticos da cidade e usa tintas coloridas para pintar camisetas brancas. Após anos de experiência nas ruas de São Paulo, o artista foi aos poucos entendendo melhor a dinâmica da rua e de quem a utiliza como palco.

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“Se você muda de lugar, as pessoas percebem. Principalmente em horário de rush, as pessoas passam voando. Elas não estão no espaço público, estão em outro lugar”, comenta. Essa mudança é uma das percepções do artista, que é morador da cidade de São Paulo há 10 anos.
Poubel conta que “quem passa de um lado [da rua] nunca muda, as pessoas não tem tempo de mudar de trajeto”. Para ele, que já tentou trabalhar na Praça da República, região central de São Paulo, é a Avenida Paulista que atende suas demandas. “Voltei para a Paulista porque encontro gente de todo o mundo, e aprendo mais com essa diversidade”, complementa.
Sobre as dificuldades e adaptações do trabalho artístico ao ambiente externo, Poubel conta que a rua exige espontaneidade, bom humor e disposição para encarar reações variadas. Ele afirma que a disciplina é uma das regras fundamentais e, para lucrar, saber conversar com os clientes é necessário. Parece que o bom papo tem feito sucesso, já que as camisetas que estampa manualmente com cartões postais da cidade estão, segundo ele, pelo mundo todo.
Com uma visão arquitetônica e estrutural da cidade, o artista faz uma curadoria de fotografias que sigam essa proposta e as revela com um tratamento em serigrafia. Depois as estampa em camisetas utilizando nanquim e pinta detalhes com tinta colorida. A parte do nanquim é feita em outro ambiente, mas a coloração acontece na rua, na frente dos clientes.
Próximo a uma banca de jornal, Poubel percebe as diferenças entre as pessoas que caminham na Avenida Paulista. Lá, circulam diariamente mais de um milhão e meio de pessoas. Para ele, o sucesso de público que obteve com seus produtos vem da soma de dois fatores. O primeiro é o cuidado manual que ele tem nas peças, e o segundo é o amor pela cidade.
“Meu trabalho não é vendido só para estrangeiro, os moradores da cidade também gostam muito porque esses são os que mais tem carinho pela cidade, é a cidade mais adorada que eu conheço. As pessoas gostam podem carregar a cidade consigo”, analisa. Sobre a rua, ele entende que “a gente não escolhe muito o lugar”. Para ele, o processo natural de chegar ao cantinho na frente do Parque Mário Covas funcionou.
Embora a escolha do local não seja um ato tão simples, a especialista em arte Alice Shintani afirma que uma das vantagens da rua é que ela pode ser o espaço em que os artistas não precisem se submeter aos modelos de grandes indústrias de arte, aflorando a expressão artística de cada um. “Eu sinto que amigos das artes visuais se sentem muito oprimidos pelas curadorias, do que pode, o que não pode, de como encaminhar as questões com o público”, conta.
Henrique Lima Cavalcanti, de 21 anos, trabalha como músico de rua quase todos os dias da semana e vê o espaço como um palco acessível no qual pode expor seu talento. Ele toca violão pelos corredores da estação Vila Madalena do metrô, localizado na zona oeste da capital paulista. Às vezes, fica sentado no seu banquinho logo entre a saída e entrada de acesso a escadaria e, outras, prefere adentrar a estação por conta da acústica do local.
O músico, que toca no violão o estilo clássico medieval, diz que prefere o ambiente do metrô, pois seu equipamento não é muito adequado para um espaço como a Avenida Paulista, onde há muito barulho. Ele ressalta que é mais fácil estar em um espaço integralmente aberto, como o lado de cima da rua. Os artistas possuem permissão para que se apresentem sem necessidade de licença. Trata-se de um direito assegurado pela Lei Municipal nº 15.776, aprovada em 2012 durante a gestão do prefeito Fernando Haddad (PT).

 

Dentro do metrô, a situação muda de figura. Não há legislação que permita a apresentação de músicos livremente, a não ser dentro de projetos específicos que passam pelo processo de liberação com o órgão. Por mais que não seja direito assegurado pela Lei, Henrique passa algumas temporadas tocando dentro do metrô. “O trabalho no metrô é bem clandestino. O pessoal que está lá dentro não vai me dar permissão para tocar, não é assim de uma hora para outra. Se eu tivesse que pedir uma permissão para o metrô, ia ser uma burocracia só”, pontua. Além disso, os corredores são bem disputados entre os músicos. “Se tiver outra pessoa no lugar, a gente negocia horários”, explica.
Ele trabalha, em média, cinco horas por dia, entre pausas para o café e as trocas do dinheiro que recebe no estilo “pague o quanto puder”. O chapéu colocado sempre à sua frente rende em média 15 reais por hora, sem contar com aparições inusitadas de notas de 10 ou 20 reais. No entanto, nem sempre o cenário é favorável. “Às vezes também fico horas tocando e não aparece nem um centavo”, conta.
Para Shintani, não há certo ou errado na rua, o que torna difícil entender qual o valor que os artistas receberam neste espaço. Ali podem se expressar livremente por meio de qualquer forma de arte. A especialista afirma que atuar nas ruas da cidade é um ato democrático, mas que merece uma grande reflexão sobre como essa manifestação artística será recebida pelo público. “O público da rua é muito mais amplo do que o de espaços fechados, mas por outro lado, dependendo de como o trabalho for introduzido, você só remodela a situação de criar uma ‘aura’ sob o trabalho”, explica.
Atualmente, Cavalcanti mora em Santo André com a namorada e pretende fazer faculdade de música, sua grande paixão. Embora ainda não tenha uma graduação na área, grande parte do trabalho que tem feito para sobreviver é tocar na rua. A ideia principal do músico é tocar no metrô sempre que for possível, mas também não abre mão de dar aulas.
“Tocar na rua acaba fazendo muito bem para uma pessoa que não tem condição de ir num concerto, por exemplo. Aqui o dinheiro gasto é sempre por contribuição. Tem gente que vem e fica alguns minutos me ouvindo, agradece e pede desculpa por não ter nada”, conta.
A história de Thais Ueda é diferente: a ida à rua e o ingresso nesse nicho foi uma escolha enquanto artista. Formada em design gráfico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Comunicação Social com ênfase em Publicidade e Propaganda pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), trabalhou em agências publicitárias por mais de uma década. O desejo de desenhar estava adormecido, mas com o boom do graffiti no início do século 21, ele foi despertado.
Nessa época, ela conta que havia muita criatividade na cidade de São Paulo, muitos bons artistas e boas obras.  Por isso passou a se interessar pela arte de rua. Como relata, “a primeira pintura foi um desastre. Fui de noite e não sabia como fazer, a tinta escorria. Da segunda vez, quase a mesma coisa, e dois seguranças quase me pegaram. Daí, arranjei o e-mail da Nina Pandolfo e escrevi pedindo para vê-la pintando. Foram vários telefonemas até eu conseguir entrar em contato porque ela estava sempre viajando, ocupada. Um dia, liguei, ela falou ‘vem’ e fui”.

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No árduo trabalho de observação, ela aprendeu truques e macetes, e foi se aperfeiçoando. Assim como Poubel, Ueda conta que para trabalhar com arte de rua, é necessário ter atitude. “A atitude de sair do lugar confortável da casa, lidar com as intempéries (sol, sujeira, trânsito, transeuntes, policiais) e ter algo em mente, que você queira mostrar, que você acredite”, aprofunda-se.
Se há algum preconceito com a arte de rua? Para ela, agora as pessoas já estão acostumadas. “Quando comecei, era mais comum ver as pessoas olhando como um dano ao patrimônio”, conta. Agora, porém, entende que as pessoas estão “doutrinadas pela crença de que graffiti é arte”.
No entendimento de Ueda, a arte de rua é democrática em dois sentidos. O primeiro diz respeito ao ambiente. Ela conta que “nos eventos de grafitti, você pinta com artistas de todas as condições sociais, de todas as regiões de São Paulo. É uma pequena festa, ninguém ali está te medindo. Todo mundo conversa com todo mundo, trocando experiência. A maioria nunca estudou numa escola de arte nem frequentou instituições”. Isso, dentro do ambiente artístico, majoritariamente elitista, é uma raridade.
A outra característica democrática da arte de rua é, claro, o público, já que quem está nas ruas não necessariamente frequenta museus e galerias. Shintani acrescenta que esse espaço possibilita uma experiência única de interação e de entendimento – ainda que pequeno diante da complexidade da arte – de como os pedestres recebem a arte de cada um dos que estão nas ruas. Ueda complementa, afirmando que “a criação na rua sempre está relacionada com aquele lugar que você está ocupando, interagindo, existindo, o que não necessariamente acontece em museus e galerias”.
Outra questão levantada por Shintani é a ocupação do espaço público. Ela explica que nem todos os que estão na rua estão atentos à intervenção artística, podendo estar imersos em suas próprias realidades. Disputar a atenção com qualquer coisa que esteja na rua é uma das principais dificuldades dos que trabalham nela.
Seja com um pincel, latas de spray ou um violão, os artistas de rua fazem do espaço público o local em que há uma troca. Expressam sua subjetividade e, propositalmente ou não, impactam de alguma forma a vida das pessoas que passam ao redor. A rua é um palco -em que a interação é a movimentação mais importante.

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