VI SEMINÁRIO UNIVERSIDADE, CULTURA E SOCIEDADE

Por Antonio Carlos Pedro

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Neste ano a VI edição do Seminário Universidade, Cultura e Sociedade , aconteceu junto à  8ª edição da Cátedra de integração Latinoamericana e Caribenha, promovida pela Associação de Universidades da América Latina e o Caribe para a Integração  AUALCPI, neste ano abordou a temática Integração e Desenvolvimento Sustentável. A cultura exerce um papel preponderante nesta questão.  A CULTURA é fundamental para a compreensão dos valores e desenvolvimento de um grupo social, uma comunidade, enfim de uma nação; é fruto do esforço coletivo pelo aprimoramento de valores espirituais e materiais, em síntese, é o conjunto de fenômenos materiais e ideológicos que caracterizam um grupo étnico ou uma nação (língua, costumes, rituais, culinária, vestuário, expressões artísticas, manifestações religiosas, etc.), em permanente processo de mudança.

Falar em multiculturalismo ou Interculturalidade é reconhecer a diversidade constitutiva das sociedades modernas. Não que elas tenham se constituído como plurais dos anos sessenta aos dias atuais, ao contrário, elas se constituíram historicamente plurais, possivelmente desde o momento em que os povos vão se humanizando, ou em outras palavras, desde o momento em que constroem o mundo, rompem com o estado de natureza e passam a criar e a recriar as condições matérias de sua própria existência.
No caso da America Latina e até mesmo da América do norte, a formação da identidade e da cultura se dá de forma plural. No caso da América Latina, tanto portugueses como espanhóis necessitavam da mão-de-obra de índios e negros originários das várias regiões do Continente Africano. E, como decorrência desse processo, verificamos uma enorme mestiçagem ou como é denominado modernamente, um planetário de culturas hibridas.
Falamos anteriormente na década de sessenta, esse período é significativo por três razões básicas: a primeira é relativa ao movimento dos negros nos Estados Unidos da América, eles vão marcar a sociedade pela exigência do reconhecimento dos direitos civis de toda pessoa humana, isso colocará para o Estado a urgência de discutir e elaborar, mesmo que a contra gosto, políticas públicas inclusivas, ou seja, obrigava ao Estado a reconhecer a diversidade de culturas existentes na mesma sociedade.
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Essas diferenças foram jogadas para baixo do tapete, em virtude das políticas anteriores serem exclusivamente voltadas para as elites, no caso da América Latina, as assim denominadas elites criollas, – em outras palavras os grandes proprietários de terra ou aos filhos destes que podiam acessar a as universidades européias, em sua grande maioria brancos e descendentes de europeus ou mestiços reconhecidos por seus pais – que ao se apoderarem do aparato do Estado colocaram a serviço dos seus ideais e interesses.
Trecho do texto publicado originalmente nos anais do III Seminário de Educação – III SED, por José Joaci Barbosa e Cristovão Teixeira Abrantes da Fundação Universidade Federal de Rondônia – UNIRCristovão Teixeira Abrantes

 

O Caribe é a região onde se dá o começo da América e sua colonização. É onde ocorre a primeira revolução de independência através da luta de escravos negros do Haiti, como também a emblemática Revolução Cubana. Na verdade, penso que conhecemos pouco dessa América. Em nosso imaginário para além de Cuba, Fidel Castro e Che Guevara, já transformado em produto multicultural – trato dessa questão mais adiante – sonhamos com as belas imagens dos resorts em praias paradisíacas, o reggae da Jamaica, enfim, muito pouco sabemos de Martinica, Guadalupe, Trinidad e Tobago, ilhas que ainda hoje são consideradas departamentos ultramarinos de potencias colonizadoras, ou no caso de Porto Rico “Estado – Livre – Associado ao EUA” e com toda carga que isso possa representar para um povo enquanto Estado – Nação.  A princípio o império espanhol, mas não só a Espanha, também a França, Reino Unido, Holanda, e Alemanha dominaram porções de terras nesta região. O Caribe foi disputado entre dois impérios. O primeiro a tradição espanhola, já mencionado neste texto, em seguida a dominação norte americana a partir de 1898, quando a Espanha perde o domínio de Cuba e Porto Rico para os Estados Unidos da América. Em troca de implantações de bases navais, os Estados Unidos da América, fecha os olhos e permite a instalação de ditaduras sanguinárias, como a de Rafael Trujillo na República Dominicana que perdurou de 1930 até 1961. A Revolução Cubana representou a possibilidade de oferecer ao povo e ao mundo uma certa visibilidade do Caribe, fazendo frente à dominação capitalista e militarista americana da Guerra Fria. Estes fatos contribuíram também para fragmentação política, lingüística e cultural dos povos dessa região.  O caribe é um região rica em diversidade por excelência, multilinguística e multirracial, com a presença do francês, o creole, o inglês, o papiamento, antes mesmo das línguas espanhola e portuguesa. Em relação inversa, o Brasil se torna mais conhecido também, através da literatura, cinema, esportes e , para determinados setores da esquerda a música de Caetano Veloso, Maria Bethânia, Chico Buarque, Paulo Freire em projetos político – educacionais. Para o intelectual porto-riquenho Arcadio Díaz-Quiñones, professor na Universidade de Princeton, que esteve recentemente no Brasil, e numa entrevista ao “Nexo Jornal” destacou as relações de proximidade e estranhamento entre o Brasil, a América Hispânica e as Ilhas do Caribe. Comentou também que apesar dessa influência do país, não se estuda o Brasil como se estuda a Espanha e a língua espanhola, ou como se estuda o Chile ou a Argentina. Há de fato um preconceito institucional de língua espanhola. O que fica é um conhecimento superficial, claro, sobejamente admirado pela criatividade, pelo samba, carnaval e futebol, e mais recentemente ao noticiário político ligados ao golpe parlamentar midiático sofrido pelo país.

Em respeito ao tema tratado neste encontro Integração e Desenvolvimento Sustentável,  ao sul da América do Sul, antes mesmo do Tratado de Tordesilhas, essa linha imaginária dividindo o continente em dois impérios, de um lado os espanhóis e do outro os portugueses, o caminho do Peabiru foi a mais importante via transcontinental da América do Sul pré – colombiana. Caminho indígena com tronco e ramais , formando uma rede de aproximadamente 3 mil Km de extensão, que começava (ou terminava) no Brasil em dois pontos: litoral de Santa Catarina e litoral de São Paulo. Cruzava o Brasil cortando os Estados do Paraná, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul, alcançava o Paraguai, a Bolívia e o Peru, ligando o Atlântico ao Pacífico. Ao alcançar os Andes bolivianos, o caminho se transformava em estrada inca, geralmente pavimentada com pedras, seguindo em direção a Cuzco, e depois se dirigindo ao litoral do Peru. Há relatos de 1555 de Alvar Nuñes Cabeza de Vaca, narrando sua caminhada a partir da Ilha de Santa Catarina até Assunção utilizando o caminho feito pelos índios. O Caminho do Peabiru.

A lógica multicultural na sociedade de consumo é composta de um  totalitarismo das escolhas, pois  parte do pressuposto que todas as escolhas estão dadas e são possíveis dentro do próprio sistema, característica própria do neo-liberalismo, Estado mínimo e deus mercado.

 No neo-liberalismo as políticas públicas de cultura são sufocadas por propostas multiculturais. Elas trazem consigo de maneira oculta uma falsa universalidade, voltadas apenas para sociedade de consumo e multiplicação de seus mercados.  As manifestações culturais, são transformadas em produtos de relativa complexidade ou entretenimento descartável, com produção planejada ao crescimento econômico dos donos do capital.

A democracia, a tolerância, o respeito e a igualdade de direitos sustentados pelo multiculturalismo são meros discursos de propaganda que se sustentam efetivamente no ideal e na aparência do que é a sociedade de consumo. As relações são rasas, permeadas de preconceitos, segregações, fundamentalismos e intolerância. O multiculturalismo dialoga com o pensamento racionalista do pós modernismo e reflete a ideologia neoliberal em suas nuances materialistas voltadas somente à lógica econômica. 

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O movimento multicultural é uma invenção contemporânea, vem na esteira do pós-moderno-industrial, que se traduz na vitória do capital sobre a força de trabalho, deslocando a sociedade e a política de identidade para cultura no terreno das contradições, e oposições coexistentes.

 A crítica cultural não pode ser separada da crítica social.

Segundo Slavoj Zizek  a ideologia hoje, mais do que nunca é parte da nossa vida cotidiana. Conhecido como polemista e figura midiática, o filósofo eslavo afirma que esta cansado da cultura pop, e cada vez mais se vê como filósofo pouco convencional, de ideias ousadas e quase contraditórias. Vejamos: A industria cultural induz o sujeito ao reconhecimento de seu pertencimento a um grupo, e isso se dá por meio de propagandas que passam associar as marcas a uma lista de produtos culturais, comportamentos, opiniões, emoções, enfim, um estilo, transformados em “hedonismo estetizado” (ZIZEK, 1997/2005).

Desse modo entendemos o multiculturalismo como ideologia do capitalismo global de países colonizados sem país colonizador, nos quais as populações se tornam nativas. Se em sua origem histórica o multiculturalismo propôs uma resistência aos nacionalismos, questionamos se ele hoje não estaria levando, paradoxalmente, a uma purificação dos nacionalismos enquanto afirmação de identidades primordiais, sendo cada vez mais esvaziadas de suas relações com princípios universais e transformadas em segunda natureza.

Vivemos tempos obscuros permeados de elementos fascistas justamente nos efeitos propostos pelos ideais do multiculturalismo. Com a formalização crescente do Estado -Nação – por força do capital globalizado e das relações de produção pós-fordistas – e a uma crescente transformação em universalidade abstrata, os indivíduos estão sendo jogados à busca da reafirmação, de identidades imediatas, orgânicas e espontâneas, amparados pela ficção hegemônica de uma intolerância multicultural, que não se sustentada no respeito e na proteção dados pelos direitos humanos, com ações e atitudes não ético-universal.

De fato o conceito multicultural não é em si mesmo cultural. Entendemos que as culturas, merecem consideração e respeito, devem se reconhecer pelas suas diferenças e diversidade, no entanto, pelo viés do multiculturalismo ela não é colocada nessa equivalência. Para Zizek (ibid.) esse lugar é um “ponto vazio da universalidade”, vai se revelando assim um “racismo esvaziado desprovido de conteúdo positivo” (p. 33) afirmando uma superioridade irascível. Certamente, estas considerações nos remete, e de certa forma carecem de, mais reflexão, mas não é de todo sem sentido,  pensarmos que a propaganda e seus administradores de “valores” se assemelha a esse apontado por Zizek.

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Por outro lado o peso das propagandas destacando as culturas dos lugares, acaba por pasteurizar diferenças e peculiaridades, acabam em certa medida forçando a barra nos princípios de regulação consensual e comunicativa, e as conseqüências são – a redução das diferenças à lógica do target na sociedade de consumo –, por fim acabam pasteurizando as raízes culturais, e na perda das mesmas: considerando que as culturas se revelam enquanto elementos distintos entre si, isto é, um em relação ao outro, por onde se fundamenta os princípios de alteridade com referências a si mesmas enquanto sentido, conteúdo e tradição.

Ainda perseguindo o pensamento de Zizek, podemos inferir que a problemática do multiculturalismo, qual seja, a coexistência híbrida de diversos mundos das vidas culturais – que hoje se impõe é a forma de aparecimento do seu oposto, da presença maciça do capitalismo como sistema mundial universal: nos deparamos com uma homogeneização sem precedentes no mundo contemporâneo. O horizonte da imaginação social não mais permite que alimentemos a idéia de que o capitalismo um dia desaparecerá – pois, como se poderia dizer, todos aceitam tacitamente que o capitalismo está aqui para ficar –, é como se a energia crítica tivesse encontrado uma saída substitutiva na luta pelas diferenças culturais que deixa intacta a homogeneidade básica do sistema mundial capitalista. (p. 35).

A Cultura vem sendo sistematicamente reduzida a processos simbólicos, com deslocamentos que exclui quaisquer possibilidades de convivência com o não – idêntico, e nessas entrelinhas o racismo “pós-moderno” contemporâneo é o sintoma do capitalismo enviesado no conceito multiculturalista, com a qual a política cultural deve lidar. A tolerância liberal não reconhece e não se vê  no outro. Tudo é fake, glamourizado, privado de substância, qualquer outro “real” é visto e denunciado imediatamente como “fundamentalista” O outro “real” fora dos padrões distintos, é reconhecido como violento, disfuncional

A ausência das diferenças , tratamos aqui do universo da cultura, mas não só, cabe a todo espectro da humanidade, tem revelado conseqüências fascistas, permeadas de “delírio” , paranóias peculiares da sociedade de consumo, estas associadas à administração da indústria multicultural, perversa e recheada de negatividade.

Como pensar e implementar uma Política Cultural que valorize uma sociedade multicultural regulada pela justa distribuição do direito à comunicação, aos fazeres e troca de saberes culturais compartilhados de maneira harmônica, com princípios e valores de alteridade, coexistência pacifica entre os seus particulares diversificados?  Este é um desafio que ora nos cabe a reflexão neste encontro.

O que é é mais do que é. Esse mais não lhe é atribuído, mas lhe permanece – enquanto aquilo que lhe é recalcado – imanente. Desse modo, o não-idêntico seria a identidade própria da coisa contra suas identificações. (ADORNO, 1985, apud DUARTE, 1993, p. 67).

Referencias:

– Entrevista: Onde fica (ou onde se esconde) o Caribe no imaginário latino-americano – entrevista com Arcadio Díaz-Quiñones, por João Paulo Charleaux – (Nexo Jornal 5 setembro 2016)

–  Conrado Ramos [1] Trabalho apresentado no V Simpósio Brasileiro de Psicologia Política, realizado na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP – Leste, em 2008.

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