Talvez sejamos os primeiros brasileiros

O povo brasileiro de Darcy Ribeiro já é e está eternizado. O trabalho encantador e inspirador de traçar raízes históricas e antropológicas da gente que mora aqui abre janelas, enche nosso pulmão de fôlego e vontade de ser brasileiro. Vontade, desejo, pois não o somos. Não somos Povo brasileiro, somos nascidos no Brasil. Não conhecemos e nem reconhecemos nossa História: nem do país e nem de nossa própria casa. Não sabemos nosso lugar no tempo e no mundo. Não temos uma identidade, não carregamos uma mesma marca, não somos daqui. Todos nos sentimos desterrados. Estamos em falta, o Brasil está em falta. Falta um Povo, de gente que vive de uma História recente e não consciente

Recentemente propus para alguns amigos que reconstituíssemos as histórias de nossas famílias. Todas elas eram absurdamente diferentes. Cada um tinha uma ascendência diferente, uma mistureba de etnias diferentes e de tradições religiosas diferentes. Ao mesmo tempo, eramos todos brasileiros, paulistanos e paulistas. Nos sentíamos parte de um mesmo grupo por estarmos próximos, mas nossas histórias, crenças e experiências não nos conectavam.

Meu bisavô por parte de pai, nasceu no início do século XX em Minas Gerais. Era de uma família de ex-escravos: um negro de quase 2 metros de altura. Seu casamento com minha bisavó foi um pouco estranho: foi até uma tribo guarani que ainda existia no interior, perto da vila em que morava, tomou-negociou uma ídia baixinha de pouco mais de 1,50 m e levou ela embora contra sua vontade. Minha bisavó sofreu nessa estranheza de relação abusiva-não-amorosa. Deles nasceu meu avô, Vicente, lá na década de 30 (não sabemos quando ele nasceu, pois não tinha certidão de nascimento: teve seu primeiro documento para casar no cartório, mas ninguém sabia qual era a sua real idade. Quando ele faleceu, há 11 anos, discutimos por um tempo a respeito de sua provável idade). Assim, meu avô era cafuso.

Seu Vicente, cafuso, casou-se com uma branca de família ibérica vinda para o Brasil em busca de terra. Ela faleceu depois de ter dois filhos; então Vicente se casou a prima de sua mulher, minha vó, Jandira. Em 1964, nasceu meu pai, Eliel. Qual a sua etnia? “Branco” ou “Caucasiano” que não é…

Por parte de mãe, tive um bisavô filho de um nordestino de ascendência islandesa com uma alemã. Este bisavô, Alfredo, se casou com dona Tereza, filha de um polonês com uma mestiça paraense. Tiveram meu avô, Alberto, que se casou com uma portuguesa de Braga filha de uma portuguesa com um francês que veio para o Brasil nos anos 50. Em 1968, tiveram a Gi, minha mãe. Dessa mistura, nasceu uma branca, com uma carga genética europeia, mas de qual etnia? Qual sua “nação”? Onde se imaginaria numa mesma família alemães, poloneses, islandeses, um francês, uma portuguesa e mestiços?

Esta história familiar começa coincidentemente com a instauração da República no Brasil. É do início do século XX pra cá. Nesta bagunça, eu, particularmente, me sinto um legítimo brasileiro, talvez, o primeiro da família…

Todos os meus progenitores tem sua história e cultura enraizada em outro lugar. Nesta terra, não estavam em sua terra. Talvez minha bisavó indígena estivesse em sua terra, sua própria cultura; mas meu bisavô fez o favor de desterrá-la. Ele mesmo, sendo filho de ex-escravos, nunca esteve na própria terra: era filho de desterrados que trabalhavam na terra de outros como e enquanto escravos. Não eram livres. Tinham saudade de uma terra que nunca puseram os pés e, ao mesmo tempo, só conheciam este chão que pisavam e não era deles. Mesmo no caso dos europeus, nenhum veio como amante da terra ou com plano de criar e produzir alguma coisa aqui: vieram para explorar e garantir a sobrevivência. Aqui nunca foi seu lugar, os vizinhos nunca foram seu próprio Povo.

Acho que em minha avó portuguesa essa postura fica mais evidente: veio para cá em busca de condições de vida melhores, para superar a pobreza da família na periferia lusitana de um tempo totalitário e garantir sustento por aqui: tirar o que for possível para viver. Explorar, querendo ou não. O Brasil deve “dar alguma coisa”, “garantir” recursos para a sobrevivência. Quando não o faz, perde seu status de terra e imediatamente é problema, obstáculo, inútil. Ninguém se sente brasileiro: Brasil é sempre “terceira pessoa” a ser explorada ou que nos oprime.

A ascendência alemã de meu bisavó veio para o Brasil no projeto republicano de “branqueamento da população”, no sul. Veio em busca de usar a terra. Os ibéricos, também. O filho de escravos, pela primeira vez, tentaria garantir o seu espaço. A índia não resiste ao ataque e sofre nas mãos dos “brasileiros” que abusam dela. Os poloneses fugiram de guerras, vieram para cá sem querer vir. Ninguém estava, esteve ou estará preocupado com a terra, com a gente, com o futuro, com a cultura. Todos se aproximaram circunstancialmente; mas não há estrutura de Povo ou possibilidade de Povo.

A complexidade desse lugar onde a gente mora, essa história intensa e recente de gente que está aqui sem estar aqui, onde os pés estão separados da cabeça, explicita a constante vista para o exterior ou do exterior: nunca nos olhamos de dentro, mas sempre através dos olhos de fora. Se um brasileiro diz, não importa. Se um gringo fala, a repercussão é imensa. Se alguém conquista marcas inalcançadas por outros brasileiros, nada tem de importância, não nos sentimos representados. Se alguém supera um gringo ou é elogiado por algum gringo, sentimos que há por aqui algum valor. Se vamos estudar filosofia, o que vale é o que está escrito em francês, alemão ou inglês. Se falamos de cultura, recitamos Shakespeare e rejeitamos os ditados populares. Se falamos de música, soa sempre um nome impronunciável, porque se for “dos nossos”, é de uma segunda categoria…

Reclamamos de que não há envolvimento com política, mas não trabalhamos e nem conhecemos nossa própria história! Ninguém se envolveu na construção da República brasileira: na minha família, por exemplo, os colonos e os colonizados estavam mais desesperados e preocupados em “ganhar a própria vida”  do que “criar a alma”. Não por maldade ou irresponsabilidade: é porque assim foi e é nossa História. Quem é “culpável”, hoje, sou eu e minha geração: os primeiros nascidos aqui sem a “desterra”.

Hoje devemos reconstruir nossas histórias, descobrir nosso passado-recente para fundar um Povo com cultura própria e consciente dela. Ser crítico depende desse movimento: se apropriar do passado e ser consciente dele. Tenho 26 anos; sou da primeira geração filha da Democracia brasileira nova. Sou o primeiro da minha família que se sente parte dessa terra. Sou o primeiro que sabe mais das culturas das gentes que moram aqui do que uma ou outra cultura que veio de fora. Sou junto com meus primos e irmã, o primeiro a saber disso. Especialmente, sou o primeiro a estar fazendo mestrado, por exemplo. Lá, com meus colegas, somos os primeiros de uma geração capaz e com a possibilidade de criticamente refundar a tradição filosófica que veio para cá em 1930 – coincidentemente,  nas levas europeias do entre Guerras, de mais gente que não veio fazer filosofia para criar alguma coisa, mas para explorar o que se tinha por aqui.

Se não há uma política que sentimos ser nossa, uma cultura que tenha nascido conscientemente da gente, se não nos sentimos representados e vivos, é porque está em nossas mãos a possibilidade consciente e crítica de fundar um povo brasileiro. Sei que minha geração é de nascidos de imigrantes ou desterrados que, pela primeira vez, se sentem daqui. Claro que há as exceções. Mas, de qualquer modo, podemos e sabemos que devemos construir algo nosso. Superar a colonização e as ondas de desterrados e exploradores não é fácil. Mas é nossa história: devemos assumi-la e redirecioná-la.

Talvez sejamos os primeiros brasileiros. Somos os primeiros “daqui”, e o que é nosso está nas mãos de quem não é daqui. Tomemos não de volta, mas pela primeira vez…

Bruno Reikdal Lima

Fonte: Talvez sejamos os primeiros brasileiros

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