Nelson Motta era um sujeito tão fofinho….

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Você pode discordar frontalmente do texto abaixo, mas não vai conseguir sem antes ler até o final.

É aquela coisa: Eu não sei dizer nada por dizer. Então eu não digo. Agora o colega xará Pedro Alexandre Sanches, escreve sobre a cobra, mostra o pau, inclusive a troca de pele da cobra. Reitero, pode não ser a tua opinião, e você tem todo o direito de discordar, mas é uma baita diferença quando a gente de depara com personas que tem algo a dizer e o dizem – ou escrevem – com conteúdo – forma e função, pois foi essa propriedade que mais me chamou atenção: A forma e a função ausente nos textos, nas escritas e nos pseudos-pensamentos dos nossos heróis que ainda vivem de overdose e sem nenhum pudor seguem jogando suas carreiras na lata de lixo da história. A quem diga que sempre lá estiveram, apenas assistimos nesse tempo-trajetória das carreiras midiáticas um verdadeiro embuste. A que se pensar!? Claro! há controvérsias também, elas são saudáveis e sobretudo esclarecedoras. O Nelsinho não é Lula, não é uma opinião instigante, provocadora, e sobretudo um texto crítico elegante. Leia aí. Tire suas próprias conclusões.

Por Pedro Alexandre Sanches, no blog Farofafá 

Nelsinho não é Lula, não

Nelson Motta era um sujeito tão fofinho que todo mundo o tratava sempre por Nelsinho. Era o típico cara “do bem”. Estava sempre por dentro de tudo, participava de cada novo movimento musical que surgia, era querido por todo o olimpo artístico brasileiro, compunha em parceria com os mais talentosos músicos. Trabalhava nas várias interfaces das Organizações Globo, escrevia para a Folha, publicava livros, biografava gênios, era entrevistado para documentários de dez entre dez astros brasileiros. Por essas & por outras, era um sujeito 100% de bem com a vida. Jamais alguém vira Nelsinho em público sem que ele tivesse um sorriso estampado no rosto.

Um belo dia, na virada de 2002 para 2003, alguma coisa começou a mudar no coração de Nelsinho. Era o início dos anos de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a popular Era Lula, que teria prosseguimento a partir de 2011 e até o momento presente com Dilma Rousseff. Nelsinho, sempre amigo de todo mundo e sempre atrelado aos humores também luminosos da Globo, começou pouco a pouco a demonstrar sinais leves de mau humor.

A estrada é comprida e a gente não acompanhou passo a passo, mas certamente um dos ápices da fase Nelsinho de Fígado Estuporado se deu em 30 de outubro deste 2015, véspera do dia das bruxas, quando o eterno garotão de praia cometeu (adivinha onde?: no todo-poderoso jornal O Globo) um texto denominado “Coração de Mãe“, que versava sobre qualquer coisa exceto sobre sentimentos ou corações maternos, fossem eles tropicalistas ou não.

Não há muito que dizer sobre tal texto, a não ser que era de uma falta de educação extrema e, mais especificamente, de uma misoginia exacerbada. Você sabe, misoginia, ódio às mulheres, ao segundo sexo de Simone de Beauvoir, ao empoderamento feminino.

Mas não se pense que o vômito misógino do machão neovalentão Nelsão se dirigia a Dilma. Não. Nas últimas semanas a presidentA vem sendo menos bola da vez do ódio das Organizações Globo do que Lula (embora mais que Eduardo Cunha, atual protegido número um das Organizações).

Nada mais ~natural~ que, premido a bajular os patrões (pela enésima vez na carreira), ao mesmo tempo que oprimido pelos próprios rancores misóginos, Nelsinho Nelsão voltasse artilharia não para Dilma, tampouco para Lula Em Pessoa, mas sim para a esposa desse último, Marisa Letícia. Nem que isso custasse desferir um golpe frontal contra a habitual fidalguia dos varões globais.

A boca da ex-primeira dama está “cada vez maior”, vaticinou o conhecido (a)crítico musical em mais uma aventura pelo ofício de (a)crítico político. A tática é tão manjada quanto os estratagemas de Ed Cunha da Globo para favorecer a cultura do estupro via Congresso Nacional: precisamos exterminar o homem, dizimamos a integridade do homem mirando na esposa do homem. À direita, à esquerda e ao centro, a misoginia emerge da toca feito ratazana esfaimada, em espetáculos de baixíssimo nível, no caso presente menos por conta de dona Marisa que pelo fato banal de que, SIM, somos governados por uma (até aqui imbatível) mulher.

Pode ser estarrecedor, mas não é surpreendente que gotas de rancor envenenadas com raticida sejam disparadas com fúria cada vez maior a partir das fortalezas globais, a ponto de já não preservar nem mesmo a bonachice dos ex-garotos de Ipanema, dos ex-de-bem-com-a-vida, dos ex-zen-surfistas (fenômeno parecido ocorre com Lulu Santos, antigo parceiro de Nelsinho e atual jurado caricato de programa de calouros norte-americanizado da Globo).

Os excrementos do texto “Coração de mãe” pareciam um ápice, mas logo seriam superados por Nelsão Furacão em pessoa. Via internet, no Diário do Centro do Mundo (site do jornalista Paulo Nogueira, um dissidente da Editora Abril), Kiko Nogueira reagiu às grosserias de Nelsinho com, entre outros bons momentos, um achado. Desnudou o artífice modesto da grandeza da bossa nova, do samba, da Elis Regina, da tropicália, do Roberto Carlos, da black music brasileira, do Tim Maia, dos dancing days tupiniquins, do pop-rock “a gente somos inútil” e da diva Marisa Monte como o que ele realmente é (e nenhum de nós, jornalistas culturais, o havia dito até hoje com todas as letras): “Um personagem marginal que se vende como protagonista”.

(A definição morreu no bolso de Nelsão, mas caberia provavelmente a 11 em cada dez jornalistas, incluídos eu, o Kiko, a imensa trupe jornalística de puxa-sacos da Rede Globo e quem mais chegar: coadjuvantes que se vendem como testemunhas oculares privilegiados da História com agazão e das fofocas com agazinho, mas têm ataques de pânico em sequer cogitar colocar a mão na massa da História ou das histórias.)

(Em animados debates motivados pela treta no TwitterRafael M. Saldanha acabou por decifrar um dos segredos de fátima da MPB: segundo ele, Motta é o “Forrest Gump da música brasileira: tudo ‘eu estava lá’, ‘fui eu que dei essa ideia’“.)

Novamente vestido com a túnica de nelsinho, Nelsinho não só teve que dormir com essa, como também passou recibo. Mais uma vez divorciado da pose de bom moço, retrucou virulento e iracundo ao Kiko. Escorregou na casca de banana, pisou no tomate e enfiou o pé na jaca. Assumiu a vontade de ser protagonista, afirmando que suas próprias filhas são mais inteligentes que os filhos do… Lula. Aproveitou para equiparar dona Marisa à formidável atriz Marília Pêra, com quem, segundo as fofocas, Nelsinho esteve casado nos idos dos anos 1970.

“Quem imagina que dona Marisa tem um milésimo do talento de Marilia Pêra e fez mais pelo país do que ela?”, indagou Nelsão Brabão em seu Facebook, provavelmente enxergando-se sentado à cadeira presidencial que Luiz Inácio maquiavelicamente lhe usurpou. A comparação é espetacular, inclusive porque a justaposição Marília-Marisa (não a Monte) leva automaticamente ao par Nelson-Luiz (o Inácio, não o Luiz Maurício, o Lulu) – com a ínfima diferença de que Marília se livrou do Lula dela há dez mil anos atrás.

O subtexto é nítido e conta muito sobre os cérebros globais: o presidente da República eleito e reeleito pela maioria da população brasileira é um zé-ninguém, um nada comparado às mentes prodigiosas que fazem das Organizações Globo o que elas são. Vestida a carapuça do Kiko, o complexo de vira-latas também reluz de transparência: como todos sabemos, nesse duelo de titãs não é exatamente Lula DA SILVA quem se considera um ~zé-ninguém~.

O momento faz de Nelson um palhacinho (mais um deles, num universo midiático superlotado de lobões e sheherazades) do embaralhamento de papéis entre os personagens antigamente conhecidos como “herói” e “bandido”. A própria Globo tem investido no filão, em particular no Jornal Nacional e na novela (até aqui malsucedida) A Regra do Jogo, na qual todo mundo é vilão e ninguém é vilão porque todo mundo é mocinha e ninguém é mocinha.

É muito umbigo de fora. Nos telejornais, as Organizações (ou a ~facção~, como diria João Emanuel Carneiro, o grão-autor de A Regra do Jogo) atiram todos os dardos no alvo de criminalizar 13 gerações de parentes, amigas, admiradores e fãs de Lula. Na teledramaturgia, ensinam que há ladrões malvados que se fazem passar por bonzinhos, inclusive para alertar que nenhum eleitor em sã consciência deverá apertar 13 nas urnas do ainda longínquo 2018.

O diacho dos ensinamentos é que o garoto dourado Nelsinho, empapuçado de novela e de William Waack até o totopo da cabeça, assimilou o quebra-cabeça de trocança de papéis e virou o que não devia: um ex-boa-praça envenenado de raiva até a quinta geração dos herdeiros (de Lula, não os dele, que são muito mais inteligentes). Demoliu a própria dramaturgia. Matou o bom moço que lhe servida de casca. Deixou cair o manto prateado de puxa-saco de estrelas para vestir a fantasia de quem sempre foi, mas nunca quis que nós soubéssemos que era: ele mesmo.

Chegamos, por fim, a um dos dados fundamentais desta era Lulidilma, Dilmilula, cada dia mais acentuado em seu 13º ano. Uma das características (tanto negativas quanto positivas) dos governos realmente populares, aqui e alhures, tem sido a de nos transformar, devagarzinho, em quem nós sempre fomos. O negro parece mais negro, a mulher fica mais mulher, o homossexual se assume, a travesti descobre que não era a única travesti da paróquia, a índia reivindica seus direitos.

Por último, e não tão divertido: quem sempre foi reacionário, mesmo que nunca o tivesse dito em público, vem à luz do dia e berra entre espumas de perdigotos: “Sou reacionário!!!”. Sim, estamos falando do nelsinho, dos nelsinhos. O texto do meninão não vai mudar o mundo em uma vírgula (tal como qualquer um de nós, o aspone global é um modesto coadjuvante). Mas, ai, como é bom que o fofo venha até nós para nos contar quem ele realmente é.

Pedro Alexandre Sanches é jornalista e crítico musical desde 1995, autor de “Tropicalismo – Decadência Bonita do Samba” (Boitempo, 2000) e “Como Dois e Dois São Cinco – Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)” (Boitempo, 2004)

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