O construtivo jeito brasileiro de organizar a arte

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Não é muito fácil encontrar conteúdos com densidade no facebook, todavia é inegável como as pessoas se utilizam deste meio de comunicação global para se comunicarem entre si. Isso não quer dizer que estas comunicações sejam primorosas, muitas vezes alcançam a profundidade de um pires de café, uma de uma poça de água no asfalto após a chuva. Se por um lado as redes sociais estabeleceram um novo formato de comunicação entre as pessoas, por outro lado no mesmo sentido as distanciam uma das outras. Não é o caso dos grupos. O Novos amigos tem se notabilizado como espaço de circulação de idéias por onde tem sido construídas relações perenes de amizade digital. É o caso do post abaixo compartilhado pelo colega Melega, integrante do grupo NOVOS AMIGOS onde sugere a pauta do Juliano Mignacca, que após visita à Pinacoteca, relata o construtivo jeito basileiro de organizar a arte. Boa leitura.

Seria algo anacrônico esboçar reflexões aleatoriamente sobre a arte concreta brasileira. Mas, após visitar duas exposições que acontecem ao mesmo tempo na Estação Pinacoteca, em São Paulo, fui impelido a embarcar nesse período histórico da arte nacional. Essas indagações brotaram quando atravessei a curta distância existente entre as salas que abrigam as exposições A Historia do Modernismo Brasileiro e a Arte Construtiva. A primeira conta com obras do inicio do século 20, uma época em que se aspirava por uma arte nacionalista, que refletisse a nossa identidade. A outra é sobre a abstração geométrica dos anos 50, que surgiu juntamente com o momento de modernização econômica e industrial, resultando no interesse dos artistas na construção de uma nova linguagem, uma nova ordem visual.

Ivan Serpa, Tinta Automotiva sobre Madeira, 1953

Cada uma das mostras apresenta tendências diferentes, mas a gênese estética de ambas é eurocêntrica. Nada de incongruente quando a referência é uma arte que se pretende universal. Até os dias de hoje, a maior parte da produção artística ocidental está atrelada aos cânones estilísticos da Europa. A não ser que estejamos falando de arte popular, primitiva ou Naïf. A arte abstrata geométrica, ou concretismo brasileiro, como é conhecido, foi postulado para se tornar um projeto visual cuja empreitada deixou um legado singular da criatividade artística do país. Numa rápida conversa que tive com o artista plástico Waltercio Caldas, na galeria Raquel Arnaud, ele argumentou algo interessante: “Cada país tem sua maneira de criar harmonia, seu próprio jeito de organizar as coisas”. A escola brasileira adotou conceitos mais radicais do que as tendências abstracionistas do início do século XX. A beleza estética deveria ser exclusivamente das formas geométricas, sem qualquer referência do mundo exterior ou interior do artista. A intenção era alcançar a pureza da arte através da essência concreta: linha, forma, cor e superfície, sem qualquer subjetivismo, isto é, queriam romper com a possibilidade de o expectador construir qualquer interpretação ao contemplar a obra, quer fosse um sentimento lírico, anedótico, emotivo ou metafísico. Com efeito, era necessário abolir a arte figurativa e criar um vocabulário visual objetivo, racionalista, com apoio da matemática. Nos primeiros anos do século 20, a arte havia se libertado da representação real do mundo. O cubismo transformou a forma; o fauvismo, a cor. Desde então os artistas foram imbuídos pelo desejo de pureza na arte, cujo fim, seria somente a beleza intrínseca do objeto. Esse caminho conduziu ao abstracionismo, que desencadeou no suprematismo e no construtivismo russo, no neoplasticismo, na Bauhaus e mais tarde na Escola de Ulm. Essas vanguardas tinham ambições e finalidades diferentes. Algumas mais líricas outras mais racionalistas. Todas, porém, compartilhavam a ideia de que a geometria seria a linguagem que dominaria a realidade universal.

Piet Mondrian, Composição com Vermelho, Amarelo e Azul, 1921

O neoplasticismo de Piet Mondrian (1872-1944), que depois fez parte do grupo De Stijl (O Estilo), pintava linhas pretas horizontais e verticais que se cruzavam formando retângulos assimétricos com cores primarias na procura do equilíbrio. Para o concretismo brasileiro, esse abstracionismo era muito lírico, possibilitando a subjetividade diante da obra. Os expoentes da vanguarda russa tinham um proposito mais radical, um conceito de arte não objetiva. Mesmo assim, o grande nome do suprematismo, Kazimir Malevich, queria provocar no espectador reação. Queria que seus quadros não fossem simplesmente peças agradáveis de ver, mas que fossem decifrados. No Brasil, diversos fatores influenciaram o caminho construtivo. O surgimento do estilo internacional da arquitetura moderna no país na década de 30, que idealizava construções racionalistas com princípios de funcionalidade. As exposições de arte na década de 40 com esse mote abstracionista, a inauguração do Masp em 1947, do MAM–RJ e do MAM–SP em 1948 e os cursos e debates dessas instituições focando a nova ordem do dia também. Em 1949, o MAM-SP apresentou a exposição Do figurativismo ao abstracionismo, demonstrando o que viria a se concretizar.

Kazimir Malevich, Suprematismo, 1916

Mas, certamente, uma das maiores influências para a arte concreta brasileira veio do suíço Max Bill (1908-1994), o maior expoente da arte construtiva na metade do século passado. Ele havia aderido ao termo arte concreta em 1936 – proposto pelo artista Theo Van Doesburg seis anos antes. Porém, a ideia de Max Bill não residia no conceito puramente abstrato como foi sugerido por Doesburg, mas, sim, no sentido mais racionalista, formalista e matemático da construção da obra. Max Bill foi fundador e professor da Escola de Ulm (Escola Superior da Forma) onde trabalhava técnicas plásticas e design. Sua passagem na primeira Bienal de São Paulo em 1951 lhe garantiu o “Prêmio Aquisição” pela obra Unidade Tripartida.

Max Bill, Unidade Tripartida, 1949

A partir dessas influências nasceu, no ano seguinte, em São Paulo, o Grupo Ruptura, liderado por Waldemar Cordeiro. No mesmo ano, foi montada uma exposição no MAM-SP acompanhada de um manifesto. Entre os participantes, Geraldo de Barros, Luiz Sacilloto, o polonês naturalizado brasileiro Anatol Wladyslaw e outros. A 429 km do epicentro do concretismo paulista, o Grupo Frente, do Rio de Janeiro, apresentou uma exposição em 1954, liderado por Ivan Serpa, que também já havia recebido o prêmio “Jovem Pintor” na Bienal de 1951 pela obra construtiva Formas. Desse núcleo, faziam parte Aluísio Carvão, Abrarham Palatnik, Franz Weissmann, Helio Oiticica, Lígia Clark e Lígia Pape.

Ivan Serpa, Formas, 1951

Naturalmente que muitos artistas que não estavam engajados em nenhum movimento desenvolviam mais ou menos as mesmas ideias. Ambos os grupos tinham em sua essência a abstração geométrica, a racionalidade. Não aprovavam que a distinção de uma obra de arte para outra seria consequência do toque pessoal do artista. A arte deveria ter uma linguagem universal. Tinham como base os conceitos da Gestalt, teoria da psicologia da forma na qual, grosso modo, as normas estéticas são conferidas à obra de arte, e não formuladas pelo espectador, opondo-se, assim, ao filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), cuja teoria afirma que a fruição da arte depende do espectador devido sua bagagem cultural e histórica. As similaridades dos dois grupos não se estenderam muito, além disso. Os paulistas eram mais teóricos e menos flexíveis em suas convicções. Waldemar Cordeiro preconizava o rigor racionalista e matemático do concretismo suíço. Era contra a intuição na confecção da obra. Talvez resida aí um aspecto crítico em relação a eles: conceber a priori algo antes de executar.

Waldemar Cordeiro, Contradição Espacial, 1958

O grupo carioca era mais imperativo e empírico. O critico Mário Pedrosa, um dos apoiadores do Grupo Frente, diz: “Em face deles (paulistas), os pintores do Rio são quase românticos’’. Tinham mais liberdade para criar, sobretudo porque Serpa, professor de vários desses artistas, adotava o “método Bauhaus”, no qual teoria e liberdade criadora deveriam se convergir. A cor era outro aspecto de discórdia. O Grupo Ruptura criticava o uso de cores porque acreditava que isso poderia desviar a mensagem pura, e consequentemente incitar a subjetividade do espectador. Com tudo isso e por isso, essas escolas se distanciaram e surgiu uma nova ruptura: o neoconcreto, que deu mais autonomia à arte, abolindo o racionalismo.

Hélio Oiticica, Relevo Espacial V1, 1960

Mas no terreno concretista, é curioso reparar como algumas pessoas reagem diante desses quadros em museus, galerias e feiras de arte. Geralmente dão uma olhadela despretensiosa, sem interesse, e seguem a procura de algo que estimule os sentidos e a subjetividade, exatamente o que a arte concreta tentou eliminar. Na maioria das vezes, cabe ressaltar, não é mesmo fácil a fruição dessas obras. A contemplação depende muito mais do intelecto e do entendimento histórico do que simplesmente do olhar. Talvez isso esclareça em parte o interesse do individuo por obras abstratas que sugerem interpretações ou criem sensações, sobretudo pelo impacto cromático, ao invés da composição racionalista da cor, forma e linha.

Willys de Castro, Objeto Ativo, 1962

De qualquer maneira, a arte concreta brasileira teve grande alcance. Esta na arquitetura, nas diagramações de revistas e jornais, no designer, na comunicação visual, enfim, em todo nosso cotidiano. E como certificou Waltercio Caldas, que cada cultura tem sua maneira de organizar o mundo visual das formas, acredito que essa ordem esteja no inconsciente coletivo.

por Juliano Mignacca

http://www.issocompensa.com/2015/05/arte-construtiva.html

Coluna Arte

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