O GOVERNO DOS ALGORITMOS

Da lavra do colega Bruno Cava Rodrigues

Kandinsky
Na semana passada, o Facebook mudou o algoritmo. Mudou o que define o que aparece na sua TL, o que será valorizado, ignorado, escanteado. Bem mais sorrateiro do que a censura direta, um algoritmo é uma função. Você fornece um input e ele calcula um output. Uma rede social como o Facebook opera milhares de algoritmos, cada um processando milhões de bits numa velocidade enorme. Seria impossível substituir os algoritmos por operadores humanos. Perceber os algoritmos que determinam a sua presença numa rede social é um bom começo para entender como funciona o capitalismo.
O sistema financeiro global depende de softwares de previsão, negociação, otimização de lucro, que inclusive agem diretamente nas bolsas, sem passar por humanos. Mega-redes logísticas como Amazon ou Walmart estão organizadas por algoritmos, assim como cadeias de montagem transnacionais (fração significativa da produção mundial), em que cada componente é fabricado num lugar diferente, às vezes em continentes diferentes. O serviço de inteligência de nações, como o PRISM da NSA, se baseia em algoritmos que peneiram o colossal volume de dados digitais e telefônicos, o big data. Em 2015, já existem algoritmos que geram outros algoritmos, campo de estudo da meta-heurística. A ideia é desenvolver algoritmos evolucionários, de segunda ordem, que otimizam os processos de otimização e são considerados condição para o surgimento da “inteligência artificial”. No fundo, ela já existe.
Então, o que fazer? quando estamos imersos nessa Cosmópolis financeira, logística e securitária? que nos excede em tal escala e intensidade que não podemos sequer ter uma noção do tamanho de nossa defasagem? Às vezes penso que as nossas preocupações ainda estão longe de tocar o problema. Que não é abstrato, pelo contrário, é o que define a nossa presença no mundo.
***
Três livros que tratam de uma “algorítmica da resistência”:
1) “A Vast Machine” (2010), Paul N. Edwards, sobre previsão de mudanças climáticas e política ambiental;
2) “Red plenty” (2010), Francis Spufford, ficção sobre uma sociedade organizada racionalmente pelo dirigismo cibernético, realizando assim o sonho/pesadelo soviético da planificação total — inspiração, por exemplo, do governo Allende no Chile, com o projeto CYBERSYN, que misturava psicologia da Gestalt com macroeconomia keynesiana;
3) “Gli algoritmi del capitale” (2014), org. por Matteo Pasquinelli, que assume a existência de um automaton tecnossocial globalizado e só enxerga linha de fuga na constituição de máquinas do comum para a desativação, sabotagem e reprogramação das biotécnicas de controle e produção.

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