Exposição no CIC em Florianópolis revela o marketing se sobrepondo aos valores estéticos da arte

Critica do artista plástico  Janga sobre exposição dos cartuns de Luciano Martins

João Otávio Neves Filho – Janga

Membro da ABCA – AICA – Associação Brasileira de Criticos de Arte

 

Diante de alguns pedidos para que me manifestasse sobre as obras de Luciano Martins expostas no Centro Integrado de Cultura e sobre o recebimento de visitas de escolas, resolvi escrever. Parece-me que a uma mostra com tais características seria inadmissível no Museu de Arte de Santa Catarina, já no espaço Lindolf Bell não vejo problemas. Quanto à visitação dos estudantes, tudo bem, desde que se esclareça aos jovens que o que vão apreciar são cartuns pintados por um publicitário que decidiu enveredar por outras áreas e não  obras de arte propriamente ditas. De modo geral, os trabalhos de Luciano são blagues divertidas e por certo agradam a garotada com suas cores de pirulito e seu clima d descontraído humor.

 

A ambientação da mostra por si já torna clara a proposta do autor direcionada para o entretenimento de massa, com sua característica frivolidade. Um tapete vermelho e um grande portal recebem o visitante, dando-lhe a impressão de estar entrando num colorido parque de diversões – faltou o carrossel com os cavalinhos.

Aliás, se formos enforcar o aspecto lúdico dessa mostra, entre as obras expostas há uma que se destaca: ” Pinóquio”, com sua original moldura de madeira que sugere uma mesa de marceneiro, aponta para um outro caminho que o autor poderia trilhar, caso pretendesse abandonar os surrados macetes publicitários que funcionam para cartuns, camisetas, logomarcas, objetos, gadgets, mas que definitivamente são incompatíveis com as questões básicas e estruturais da arte. Outro trabalho que poderia resultar em soluções formais mais consistentes é o que se refere aos mosaicos de São Marco.

Talvez o que mais irrite os mais esclarecidos seja a pretensão desse tipo de manifestação ser encarada como a “grande arte”. Um texto de apresentação da mostra colocado na entrada não deixa dúvidas. Num anacronismo gritante, o autor do texto declara-se membro de uma “academia de belas-artes” . Oras, a simples palavra academia no século 20 já era risível, e acrescida do termo “belas artes” chega a ser patético.

Como estamos numa província, é sempre bom lembrar que boa parte do público não a menor condição de distinguir “alhos de bugalhos”. Daí o perigo  que o kitsch representa, pois ao se fazer passar por arte acaba confundindo aqueles que por falta de informação e vivência confundem pintura com tintura, ilustração  ou decoração inconseqüente com obras portadores de reflexão e significado.

A obra de arte genuína é fundamentalmente ambígua, nela convivem a pluralidade dos significados num só significante. Já o kitsch é por demais óbvio, é feito para vender e para agradar ao gosto médio dos que não querem ou não conseguem refletir. O kitsch atende à demanda coletiva de consumir arte por parte do imenso público socialmente ascendente, mas que ainda não teve oportunidade de aprimorar suas informações a ponto de distinguir a arte genuína dos arremedos que se apresentam como tal. O brilho kitsch é falso (fake) e, na sociedade de massas em que vivemos ele se expande de forma avassaladora e inexorável, invade cada canto, espaço e aspecto de nossas vidas cada vez mais frívolas e sem significado.

Com suas cores alegres e decorativas, com suas formar estilizadas, a mostra em questão é feita sobre medida para enfeitar salas e saguões de quem não quer dar trabalho à sua massa cinzenta. Trata-se de um prato feito, cheio de cacoetes e macetes dos afiches publicitários que se repetem à exaustão. As pretensas releituras de ícones das artes plásticas são simplórias, frívolas e gratuitas. Em suas reinterpretações equivocadas retiram qualquer possível significado das obras abordadas, explicitando o que citamos acima sobe a pretensão do kitsch ser encarado como arte verdadeira.

Percebe-se claramente no conjunto das obras que o autor não tem nem o olhar nem a pegada do artista plástico genuíno, mas sim o de um publicitário e ilustrador. Não é pecado nenhum ele fazer seus trabalhos, expô-los e vendê-los ao imenso público que com ele se identifica. Faz-se necessário, porém, deixar bem claro que trabalhos com essas características de indústria de entretenimento, assim como os de Romero Brito, tão incensados pela mídia, nada têm a ver com o verdadeiro circuito das artes visuais. A arte genuína, a arte com A maiúsculo, estrutura-se e afirma-se a partir de pressupostos básicos que em momento algum confundem-se com propostas como essa.

A Crítica da critica da critica
São Paulo em resposta a critica do Janga sobre a exposição de Luciano Martins no Centro Integrado de Cultura em Florianópolis: a critica esta no blog www.iddeiaculturaepesquisa.com
A Leticia Weigert da PUCRS escreve que os bons e velhos críticos de arte vivem na romântica ilusão de sque seus conhecimentos dão capacidade de entender e avaliar a experiência única de cada indivíduo diante de uma obra. Correto? Sim e não. Janga não cai na velha fórmula carcomida dos críticos que escrevem para vender arte deste ou daquele, apenas compõe sua crítica em respeito a obra que se apresenta ao grande público e o faz com pertinência e refinada clareza ao elucidar aos leigos que arte não é publicidade, e muito menos marketing floreado de arte-educação, responsabilidade social e etc.etc. A crítica do artista não é branca, e nem colorida como sugere a leitora Letícia, e não é permeada de inveja branca, apenas esclarece ou até mesmo educa o público a buscar o entendimento sobre o Estado da Arte que é muito diferente do ora se apresenta como tal. Essas expressões até então sugeridas ao público leigo como arte não passam de manifestações maneiristas, comprometidas com o mercado de múltiplos – que não a gravura – mas a penduricalhos mil que vão de canecas de chá a chaveiros – e o pior é saber que muitas escolas – inclusive a escola onde meu filho estuda, apresenta Romero Brito como arte. Claro que não fui reclamar ao corpo pedagógico, mas me coube a ensinar meu filho que arte pressupõe para além do estilo, uma maneira de pensar conectada com o seu tempo, com a sua raiz, e com as consequências que ora se colocam diante do mundo. E assim, aos oito anos de idade ele entendeu perfeitamente o legado de Picasso quando compôs GUERNICA, ou a representatividade da arte de Tarsila do Amaral diante dos operários do país que recebia as suas primeiras fábricas. Para entender arte não é necessário ser sociólogo, filosofo, letrado ou acadêmico no sentido da palavra. A arte viva emociona e toca a sensibilidade das pessoas através da sua beleza intrínseca. Quando desperta essa sensação no espectador, ela cumpre o seu papel. Muito diferente dessas quinquilharias pintadas que necessitam explicações para se fazer entender. Também é preciso entender que o crítico não denegri o caráter da pessoa, mas sim estabelece o ponto de vista crítico sobre o material que se apresenta e dela – a critica – não pode fugir da verdade, pois ao contrário, estaria mentindo para o público. Quero dizer – não existe mulher meio grávida. Ou ela está grávida, ou ela não está grávida. Portanto não cabe discutir na critica o bom pai, o bom pagador de impostos, o tempo que leva para concluir os seus cartazes. Acho mesmo que eles tem seu espaço, apenas não podemos confundir as estampas publicitárias como arte. Não cabe na critica discutir a alma iluminada e honesta, trabalhadora, humilde, e honesta, do bom pai. Esses atributos não fazem dele um Picasso. Nem sei se é esse o desejo dele. Colocação infeliz do filho Fábio Martins. Não é disso que trata a crítica. Muito menos dos trabalhos sociais, bate papos com jovens estudantes, projetos educacionais e outros etc. etc. Florianópolis sempre recebeu de braços abertos seres humanos de todos os lugares, essa é uma vocação da Ilha do Desterro desde tempos imemoriais. Nela encontramos pessoas das mais diversas matizes. Uns tantos que fazem desse lugar o seu modo de vida, outros que acham que a ilha é o quintal da sua propriedade, sem nenhum respeitos as características culturais genuínas da sua gente e do modo ser e ver o mundo a partir da ilha para o continente. Enfim! a Ilha está repleta de pessoas que vieram de outros lugares e quando nela chegam, não respeitam as diferenças, acham que o transporte é ruim, que o modo de ser , ver e pensar dos manézinhos da ilha é retrógrado, que são preguiçosos, que os serviços são lentos, e etc.etc. Oras, porque não voltam as suas origens? É simples assim. Se não esta confortável, basta retornar e ponto. Essa é a província de Florianópolis a que se refere o crítico, ou seja, cada qual que chega, tem o território como quintal da sua casa. Claro que não falo da totalidade, mas em parcela significativa de pessoas-artistas. Na verdade chegam na Ilha vindo de algum lugar, aportam no território com o desejo manifesto de mudar de vida, já cansados das cidades dos grandes centros urbanos, e diante da imensa natureza que nela encontram se sentem como artistas e com o direito de criticarem o jeito de ser dos seus habitantes. Por outro lado cada qual tem direito a ser e ter a felicidade do tamanho de um super maracanã, como bem escreveu Jorge Mautner – se a ilha não se traduz nesta felicidade, pois então retorne para o seu maracanã, ou beira rio, ou Pacaembu, seja lá onde esteja o seu estádio de felicidade. E nesta fauna e flora que compõe as tribos da ilha, muitos misturam alhos com bugalhos. O crítico não escreve sobre o ego das pessoas, mas sobre as suas obras. O problema é quando a obra não tem qualidade e aí volta a baila a discussão sobre o que é arte e o que não é arte, que serve mais como subterfúgio para não se discutir a não qualidade da obra referenciada no texto, e outros tantos do tipo: por isso as pessoas não vão aos museus – isso é uma balela do tamanho do mesmo super maracanã – as pessoas não vão aos museus porque a arte não figura como elemento de formação na educação brasileira – quem sabe com o novo ministro a gente consiga melhorar este estado de coisas, onde a arte não seja confundida com trabalhos sociais, e outras palavras cheias de vazio do tipo: A arte deve ir onde o povo está. A critica desenrolada pelo Janga não trata dessa questão, ao contrário, revela ao público a necessidade de entender que cartazes multicoloridos não é arte. Pois nesta mundo de meu deus, muitos intelectuais não conseguem diferenciar arte naif de arte contemporânea e continuam frequentando vernissages de agências de publicidades com ares de artistas apreciadores de arte de publicitários que optaram pela pintura em telas e cartazes para conviver em paz com a natureza.
Quando o marketing se sobrepõe aos valores estéticos da arte
11 h ·

Professores, atenção! Para pensar!!!

Foto de Lu Renata.
Foto de Lu Renata.
Foto de Lu Renata.
Foto de Lu Renata.

Essa semana estive no MASC com meu filho de sete anos, ficamos mais ou menos uma hora e meia mergulhados no mundo colorido de Eli Heil, e para minha surpresa, durante esse tempo, entrou apenas uma pessoa. Enquanto que na exposição do lado, nada contra a exposição do lado que tem um baita marketing, não parava de entrar escolas e mais escolas com um monte de crianças olhando aquelas carinhas felizes e redondas que fazem uma Releitura de obras de arte. Gente, marketing, publicidade, assessoria de imprensa, HELP…Artistas, pesquisadores, educadores, jornalistas nós precisamos divulgar essa exposição da Eli Heil que fica só até o dia 15 de Abril. As crianças ficam deslumbradas com os seres que vivem na obra dessa artista.

E para minha surpresa pior, ao sair do museu abordei uma professora que saía com seus alunos “dessa exposição do lado” perguntei se foram ver Eli Heil, ela disse: “QUEM? NÃO CONHEÇO, NÃO SEI DE NADA”. Caraca, que cidade é essa? Que inversão é essa onde Luciano Martins é mais conhecido como artista do que Eli Heil?

“A arte para mim é a expulsão dos seres contidos, doloridos, em grandes quantidades, num parto colorido”. Eli Heil.

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