ASAS DO DESEJO – poesia, encanto, dor e angústia – Tão Longe! Tão Perto

O FILME “ASAS DO DESEJO” E A CONTRADIÇÃO DE SER ANJO

Marcos Vinicius, colega blogueiro cinéfilo – escreveu qe Asas do Desejo foi um dos filmes que mais adorou. Eu,  sem dúvida e nem medo de errar ou trair meus sentimentos, declaro escancaradamente minha predileção. Afora a leitura crítica, estética da qual não tenho competência para tanto, ainda se faz presente em minha memória emotiva o ar contemplativo da observação da vida e a passagem do tempo. Quando escrevi o post sobre a consciência do tempo, publicado aqui mesmo neste blog, referia-me a este tempo de descoberta e da própria identidade. Asas do Desejo.  Sou fâ de carteirinha de Win Wenders e das reflexões que propostas pelos seus filmes. Do espiritual na arte escrito por Kandinsky propondo uma reflexão sobre as artes plásticas, Asas do Desejo Wenders traz aos nossos olhos a metafísica pura, própria das inquietações do nosso espirito cotidiano, e as experiências vivenciadas no espaço urbano. Bem como escreveu Marcelo no seu post, quem se envolve na poesia do filme, jamais irá esquecê-lo. É verdade.  fundamentalmente da experiência urbana social e existencial (e, portanto, humana). Quem se envolve na sua poesia, jamais irá esquecê-lo.

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Asas do Desejo do diretor Win Wenders foi premiado em Cannes, sem dúvida um dos melhores filmes da década de 80 reconhecido pela crítica internacional, pela sua forma simples, absolutamente poética. Poesia falada no cinema, vido do interior d´alma dos personagens, com os quais você acaba inefavelmente acolhendo dentro do seu próprio coração. Tudo é muito tênue, sensível, delicado, as própria cores – preto e branco – são permeadas de matizes, escalas cromáticas, hora acinzentadas de uma Berlim encantadora ao mesmo tempo rodeada de puro mistério. Tudo isso acontece antes da queda do muro, com dois mundos separados literalmente. As intervenções dos personagens (seres humanos) no filme são coloridas, enquanto os anjos aparecem transitando por lugares comuns em preto e branco. A técnica evidencia a presença das ideologias, da insegurança, dores, saudades resultantes da guerra fria imposta ao mundo naquele período. Todos buscamos encontrar um Damiel e Cassiel para nos acompanhar nestes tempos de amargura, solidão e dúvidas de como fazer, e o que fazer para não sucumbir ao caos devastador. Ao trazer para tela uma questão existencialista, o diretor também deixa no ar questões que provam reflexões atemporais: por que eu sou eu e não você? onde termina o tempo e onde começa o espaço?

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poesia, encanto, dor e angústia

Os anjos estão submetidos a condição de infelizes. Vagam por uma cidade em busca de seres humanos com quem possam trocar experiências. Dialeticamente precisam se tronar mortais para vivenciarem as experiências que assistem do lado de fora entediados, flutuam no tempo e espaço com suas atemporalidades, pois vivem uma eternidade plena de vazio, nem inicio, nem fim, com olhares vazios, tanto quanto os humanos carregam suas dores, e vivem condenados a testemunhar a dor, a inveja, a solidão, a silenciosidade dos humanos mortais com suas angustias, medos e desilusões. A cena do anjo Damiel encarnado para viver a experiência do amor com a trapezista do circo, trocando a sua condição de anjo por um amor finito, de sorte colorida é emocionante. Quem consegue, ou melhor que se permite ser raptado pela poesia do filme, não tem como não se emocionar. Estão ali presente valores como livre arbítrio, generosidade, expectativa de vivenciar uma experiência humana. Amor. Diferentemente da sociedade consumista, racionalista em que vivemos, Asas do Desejo reflete a condição espiritual do homem para além da filosofia cartesiana. Anjos existem e tanto quanto, são infelizes, merecem ser salvos e é disso que o filme trata, propondo a recondução à condição de mortais, e tudo isso através do lúdico e da poesia, permeadas de gestos, olhares, atitudes, dúvidas e manifestações encantadoras própria da linguagem do cinema.

A explosão de sentimentos que o filme proporciona desde a primeira cena onde o Damiel aparece registrando em seu caderno, sua experiência de encarnação, relatando que as palavras já não bastam, é por si só reveladora, pois somente no final nos deparamos que entre o começo e o fim daquele texto, aconteceu o filme. E daí naturalmente nos propomos a reflexão una, indivisível que cabe a cada um de nós, pobres vãos mortais: tanto quanto Damiel já cansado de viver sem carne,  também podemos ser anjos desencarnados em busca dessa experiência? O filme nos pega de supetão, e quando nos damos contas, estamos totalmente absorvidos pela magia do cinema. Sim esta magia que nos surpreende quando tomamos contato com a experiência de conhecermos anjos humanos, que vivem e sofrem sentimentos que são próprios dos humanos, demasiadamente humano. Descobrimos que entre o invisível e o visível  temos asas e desejos.

O filme todo transcorre numa Berlim devastada do pós-guerra. Neste ambiente dilacerado um batalhão de anjos vela pelas almas perdidas que vagam desesperadas pelas ruas em silêncio profundo e cheio de vazio. Assistem a desventura humana. Ao mesmo tempo não sentem as dores nem tampouco as dores e as alegrias humanas. Damiel o anjo busca vivenciar a experiência humana e se permite apaixonar por uma trepezista Marion e para consumar este desejo, para poder tocá-la, deve deixar de ser anjo e se tornar humano.

Título orginal: Der Himmel uber Berlin – Asas do Desejo

Pais de origem: Alemanha / França

Ano : 1987

Duração 130 minutos

Diretor: Win Wenders

Elenco: Bruno Ganz, Solveig Dommartin, Otto Sander e Peter Falk

Inspirado no texto de Marcelo Vinicius da obvius magazine publicado em cinema  obviousmagazine 

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