São Paulo tem emoção e poesia

Já falei em algum momento disso de ter que fatiar emoção, que às vezes é tanta, a ponto de não caber no dia. E eu devia fatiar a emoção de ontem-hoje que já tinha sido tanta pela manhã, quando escrevi sobre a minha mãe. Só que a de hoje não posso deixar pra amanhã. Não posso! Não posso deixar esse pão de poesia adormecer no noturno silêncio! Hoje na Biblioteca Mário de Andrade, vivi uma das emoções mais incríveis da minha vida literária. Cheguei como quem não quer nada, pois de fato nada queria, além de prestigiar o evento "desorganizado" pelo querido Ferréz como parte da Virada Cultural. O que não sabia era o mundo que eclodiria ali. Foi o meu primeiro "sarau de periferia". A primeira vez que presencie o ecoar da voz dos poetas dos extremos da cidade. E a cada fala, a cada poema-poesia-prosa, fui me reconhecendo. Fui, acho, me reconciliando comigo, com o eu que eu era quando eu também era da periferia, sem destino, sem futuro. Não posso dizer da atmosfera que havia ali, porque há experiências que não são compartilháveis. Mas posso e quero dizer do espanto no momento final. Um garoto que pouco tinha participado decide subir ao palco. Um garoto de camiseta regata, cabelo raspado e braço tatuado, como tantos que vemos passar por nós deixando atrás de si uma impressão de abandono e que, ao mesmo tempo, nos amedrontam. O garoto subiu ao palco e timidamente se colocou a recitar a sua poesia, num ritmo de rap, e cheia daquela rispidez que vem cortando o ouvido da gente, acordando-nos para aquela realidade que a gente insiste em negar: violência-opressão-crime. Ainda recitando, o garoto se aproxima do piano preto que havia sobre o palco. Sim, porque havia um piano preto sobre o palco, até então, um piano-deslocado, sem lugar, calado que só, intimidado com a poesia que por vezes ecoava do megafone ou espocava imitando bala de revólver. Pois o garoto se acercou do piano. Enfiou a mão nas entranhas do piano e eu cheguei a pensar que ele fosse arrancar as vísceras do piano. O garoto chegou mais perto, sentou no banquinho em frente às teclas. O garoto tocou violentamente as teclas. E eu cheguei a pensar que ele... Mas então o impressionante-improvável. Das mãos do garoto e das entranhas do piano, uma melodia profunda-pungente. Uma música clássica que meu ouvido conhece, embora meu pensamento não saiba nomear. O garoto de camiseta regata preta, braço tatuado e cabeça raspada enfiou as suas mãos nas minhas entranhas. Revirou em violentos acordes a minha dor e eu chorei, chorei de soluçar, chorei com as minhas vísceras expostas. Depois, rosto ainda coberto de lágrimas, me dirigi ao garoto. Quando cheguei perto e disse: "deixa eu te dar um abraço?", o garoto recuou por uma fração de segundo, antes de se deixar abraçar. Tive a impressão de que o garoto por uma fração de segundo teve medo de mim. Tive a impressão de que o garoto nunca tinha recebido um abraço assim. O garoto de camiseta regata preta, braço tatuado e cabeça raspada ficou em mim, para sempre. 

Quando sai da Biblioteca Mário de Andrade soube que São Paulo tinha sido coberta de gelo, que um temporal de granizo sem precedentes se abatera sobre as ruas cinzentas. Muitos diziam que tinha "nevado" em São Paulo. Eu não vi. Eu não vi nada. Eu não ouvi. Eu não ouvi nada. Eu hoje só lembro de ter visto e ouvido um garoto de camiseta regata preta, de braço tatuado e cabeça raspada tocando uma música clássica num piano preto na Biblioteca Mário de Andrade.

Antonio Carlos Pedro e Juca Ferreira compartilharam a foto deSimone Paulino.

Já falei em algum momento disso de ter que fatiar emoção, que às vezes é tanta, a ponto de não caber no dia. E eu devia fatiar a emoção de ontem-hoje que já tinha sido tanta pela manhã, quando escrevi sobre a minha mãe. Só que a de hoje não posso deixar pra amanhã. Não posso! Não posso deixar esse pão de poesia adormecer no noturno silêncio! Hoje na Biblioteca Mário de Andrade, vivi uma das emoções mais incríveis da minha vida literária. Cheguei como quem não quer nada, pois de fato nada queria, além de prestigiar o evento “desorganizado” pelo querido Ferréz como parte da Virada Cultural. O que não sabia era o mundo que eclodiria ali. Foi o meu primeiro “sarau de periferia”. A primeira vez que presencie o ecoar da voz dos poetas dos extremos da cidade. E a cada fala, a cada poema-poesia-prosa, fui me reconhecendo. Fui, acho, me reconciliando comigo, com o eu que eu era quando eu também era da periferia, sem destino, sem futuro. Não posso dizer da atmosfera que havia ali, porque há experiências que não são compartilháveis. Mas posso e quero dizer do espanto no momento final. Um garoto que pouco tinha participado decide subir ao palco. Um garoto de camiseta regata, cabelo raspado e braço tatuado, como tantos que vemos passar por nós deixando atrás de si uma impressão de abandono e que, ao mesmo tempo, nos amedrontam. O garoto subiu ao palco e timidamente se colocou a recitar a sua poesia, num ritmo de rap, e cheia daquela rispidez que vem cortando o ouvido da gente, acordando-nos para aquela realidade que a gente insiste em negar: violência-opressão-crime. Ainda recitando, o garoto se aproxima do piano preto que havia sobre o palco. Sim, porque havia um piano preto sobre o palco, até então, um piano-deslocado, sem lugar, calado que só, intimidado com a poesia que por vezes ecoava do megafone ou espocava imitando bala de revólver. Pois o garoto se acercou do piano. Enfiou a mão nas entranhas do piano e eu cheguei a pensar que ele fosse arrancar as vísceras do piano. O garoto chegou mais perto, sentou no banquinho em frente às teclas. O garoto tocou violentamente as teclas. E eu cheguei a pensar que ele… Mas então o impressionante-improvável. Das mãos do garoto e das entranhas do piano, uma melodia profunda-pungente. Uma música clássica que meu ouvido conhece, embora meu pensamento não saiba nomear. O garoto de camiseta regata preta, braço tatuado e cabeça raspada enfiou as suas mãos nas minhas entranhas. Revirou em violentos acordes a minha dor e eu chorei, chorei de soluçar, chorei com as minhas vísceras expostas. Depois, rosto ainda coberto de lágrimas, me dirigi ao garoto. Quando cheguei perto e disse: “deixa eu te dar um abraço?”, o garoto recuou por uma fração de segundo, antes de se deixar abraçar. Tive a impressão de que o garoto por uma fração de segundo teve medo de mim. Tive a impressão de que o garoto nunca tinha recebido um abraço assim. O garoto de camiseta regata preta, braço tatuado e cabeça raspada ficou em mim, para sempre.

Quando sai da Biblioteca Mário de Andrade soube que São Paulo tinha sido coberta de gelo, que um temporal de granizo sem precedentes se abatera sobre as ruas cinzentas. Muitos diziam que tinha “nevado” em São Paulo. Eu não vi. Eu não vi nada. Eu não ouvi. Eu não ouvi nada. Eu hoje só lembro de ter visto e ouvido um garoto de camiseta regata preta, de braço tatuado e cabeça raspada tocando uma música clássica num piano preto na Biblioteca Mário de Andrade.

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