Articulador, que profissional é esse?

A Raquel esta participando do curso gestão cultural e cidadania  que vem sendo realizado em parceria com a Universidade Municipal de São Caetano do Sul.  Nosso contrato de convivência com os participantes propõe que a cada módulo encerrado, seja criado um texto observando os conteúdos discutidos em sala. Semana passada publicamos o texto da Roberta  Giotto – Vivemos no  Caos – quem ainda não leu e caso se interesse, basta acessar os posts anteriores.  Acabamos de receber a mensagem da Raquel Ribeiro que é gestora do Instituto Eduqtivo, no final do texto enviado por ela, você encontrará o link da entidade. A editoria do blog diagramou o texto e publica as imagens pesquisadas na rede com os devidos créditos autorais. Segue a mensagem da Raquel: ” Desculpe a demora em mandar o texto (mini TCC) ou TCM (Trabalho de Conclusão de Módulo)…hehe!! Não sei se era exatamente essa a proposta, mas foi sobre isso que o primeiro módulo me fez pensar.

 

Wassily Kandinsky _detalhe

Wassily Kandinsky _detalhe

 

Articulador, que profissional é esse?

Por Raquel Ribeiro

Isso mesmo, começo esse texto não falando, mas perguntando, porque este texto pretende compor-se com sua opinião e não ser uma afirmação acabada sobre um assunto que ainda está sendo construído na contemporaneidade.

Mais que um descritivo de profissão ou área, o profissional do século 21 precisa ter desenvolvido em si uma série de competências bem específicas e se isso ainda não for realidade, ele vai precisar “correr atrás”. E é sobre essas competências, comuns a vários profissionais, que vamos dialogar. Mais especificamente gostaria de pegar como modelo dois profissionais com quem tenho me relacionado, o gestor cultural e o professor, que têm muito em comum, pois ambos têm o potencial de promover ações de cultura em espaços coletivos e para públicos específicos, ampliando o acesso e democratizando a cultura. É sobre o que eles e tantos outros profissionais têm em comum que começarei a tecer esta rede de competências necessárias ao profissional do século 21.

A revolução tecnológica que estamos vivenciando não tem determinado apenas o uso de novas tecnologias da informação e comunicação de forma contundente, mas sua popularização e desdobramentos têm sido preâmbulo de uma nova forma de interação social que tem impactado também as relações corporativas, é a chamada cultura de rede.

Outro marco da contemporaneidade é a globalização, onde as fronteiras econômicas, políticas, sociais e culturais foram superadas por um acesso amplo a novos conhecimentos e novas possibilidades de inter-relações que têm demandado a superação de um novo desafio, o de equilibrar a própria visão entre o local e o global nestas relações, ou seja, viver localmente e relacionar-se globalmente. Ainda em outros termos, ter um objetivo definido, um foco, mas não perder de vista o cenário onde se está inserido, assim como as interações que se estabelecem nesse contexto.

 

Nesta era da cultura de rede, como se configura o ambiente profissional?

Há bem pouco tempo atrás tínhamos, e ainda temos, corporações organizadas de forma hierárquica, com sua gestão centralizada em poucas mãos, com um meio de produção fragmentado que gerava um grande número de profissionais bastante especializados e um número ainda maior de profissionais em grandes linhas de produção e que cuidavam apenas de um pedaço dessa produção, ou seja, cada um no seu pedaço cuidava de sua parte e alguém coordenava o todo do que estava sendo produzido, seja um bem material ou imaterial. Essa lógica tem sido transformada de forma vertiginosa, dando lugar a processos produtivos mais enxutos e descentralizados. Existem vários estudos que aprofundam essas imagens descrita como o Fordismo; Toyotismo ou o Volvismo.  O que quero trazer para o debate é que não é mais novidade que as empresas estão cada vez mais concentrando atividades num número menor de profissionais e até terceirizando serviços. Por outro lado, os profissionais já não têm mais a segurança e estabilidade de permanecer numa mesma empresa por longas décadas, ou seja, aquela visão do profissional que entrava na empresa e se aposentava nela está cada vez mais rara ou até inexistente. Para além do profissional que é versátil e exerce várias funções dentro de uma empresa, este profissional está sendo solicitado a ser cada vez mais um empreendedor, não apenas para a empresa, mas para além dela, para si mesmo no mundo do trabalho.

O Fordismo estabeleceu a divisão do trabalho criando postos de trabalhos especializados, onde a produção se desenvolve em esteira ou cadeia utilizando um grande número de trabalhadores, propiciando aos empegados a possibilidade de aumento salarial. Essa metodologia transformou o esquema industrial, pois otimizou recursos, reduziu custos, e permitiu a expansão do negócio propiciando as diversas classes sociais, o poder de adquirir os produtos fabricados, que vai se desembocar na cultura de massas dada a estratégia – estandardização – de fabricação adotada, e também na insatisfação dos trabalhadores organizados em sindicatos buscando melhores salários. grifo da editoria.

 

Neste contexto, qual seria o perfil necessário para um profissional conectado com seu tempo?

Com o propósito de criar soluções coletivas para grandes desafios, o profissional dos novos tempos precisa ter desenvolvido competências bem específicas. A começar pela capacidade de adaptar-se, pois como em qualquer situação de mudança, o velho e o novo convivem e disputam o mesmo território. Contudo, a competência que julgo fundadora e agregadora de tantas outras neste novo perfil é a capacidade deste profissional de ser um articulador, entendendo esse termo em seu aspecto mais amplo possível. Ou seja, capaz de saber onde está e qual é a rede que deseja formar no seu entorno. Assim, ele é articulador de seu projeto de vida, de seus interesses, articulador de seu network, de sua formação e aprendizagem contínuas, articulador de eu tempo e de suas parcerias, etc.

Entendendo que competência é a capacidade de aliar conhecimento teórico a sua aplicabilidade, um articulador é aquela figura que tem, por exemplo, a competência de estabelecer conexões entre profissionais colaboradores, recursos, oportunidades e seus interesses. Aqui cabe um parêntese. Muitas vezes quando falamos que agimos por interesse, isso vem carregado de um juízo de valor bastante negativo, mas agir por interesse em si não é ruim. O negativo e que traz problemas é não colocar esse interesse na mesa de negociação, ou seja, não explicitar qual interesse me move a desenvolver uma parceria, uma ação colaborativa e não identificar com o que estou disposta a contribuir e ainda pretender influenciar a situação para satisfazer exclusivamente meu desejo. Portanto, é fundamental ter clareza do que desejo receber e do que posso oferecer nessa troca e expressa-los.

creative_economies_33_ Os cineastas Indígenas produzem Programação infantil no Brasi

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Voltando ao profissional articulador, ele precisa fundamentalmente ter iniciativa, ou seja, ele sabe o que quer e como buscar, tem foco em seu objetivo e por isso suas escolhas são embasadas. É criativo, sabendo aproveitar as oportunidades, sejam desafios ou conquistas, para propor soluções a problemas coletivos. Para esse profissional toda situação traz em si uma oportunidade de aprendizagem ou realização. Ele sabe que o conhecimento é constantemente aprimorado e por isso aprender ao longo da vida não é perda, mas ganho de tempo. Ele é um autodidata. Num universo em constante transformação, fazer a auto gestão, a co-gestão e a heterogestão são condições intrínsecas de um profissional com autonomia, ou seja, para ser autônomo é preciso saber equilibrar sua capacidade de gerir seus interesses com sua habilidade de trabalhar colaborativamente e a compreensão de que há momentos de liderar, mas há também momentos de ser liderado, sendo um empreendedor.

A comunicação é uma de suas habilidades mais poderosas, pois ela abre portas e estabelece conexões e para isso este profissional se utiliza da capacidade de análise e síntese, pois é preciso identificar o que um parceiro pode oferecer e se isso está relacionado com seus interesses, assim como é preciso sintetizar o que pode ser oferecido. Para isso, este profissional é capaz de identificar e expressar qual é a troca desejável e possível, reconhecendo onde existe intersecções nas possíveis parcerias estabelecidas.

Enfim, estamos falando de ter desenvolvido e/ou desenvolver competências pessoais, relacionais, cognitivas e produtivas que envolvem habilidades como iniciativa, criatividade, autodidatismo, empreendedorismo e comunicação, entre outras.

Para ilustrar essas colocações trago o exemplo de uma professora que conheci a partir do projeto de formação de professores do Eduqativo – Instituto Choque Cultural. Ela leciona para alunos do Ensino Fundamental I na faixa etária entre 10 e 12 anos. Poderia ser comumente aquela professora presa a um currículo e um sistema escolar que a deixa descontente e que se mostra ineficaz. Mas, como uma profissional articulada e articuladora ela ultrapassou o âmbito de suas funções básicas e fez de seu ofício um prazer e uma oportunidade de aprendizado, ela está aprendendo ao longo da vida.

Esta professora teve a iniciativa de combinar com seus alunos que toda experiência em arte por que passasse iria compartilhar com eles. Mais uma vez acreditando em sua formação contínua, por iniciativa pessoal, participou da formação de professores do Eduqativo que tinha como proposta ajudar o educador a perceber as conexões possíveis entre arte urbana e arte mais tradicional e já consagrada, prevista no currículo. Entre as atividades do curso, houve uma visita ao Beco das Artes na Vila Madalena onde ela pode entrar em contato e fotografar a produção da artista americana Swoon. A partir dessa experiência e do acordo firmado com seus alunos, a professora, em colaboração com as crianças, realizou uma pesquisa rica sobre a técnica tanto da artista quanto da arte urbana através do lambe-lambe, exercitando toda sua capacidade de auto gestão para equacionar sua formação e a formação artística de seus alunos, sua capacidade de cogestão ao pensar um projeto de pesquisa que foi construído e desenvolvido em colaboração entre educadora e alunos e por fim, sua capacidade de heterogestão ao intercalar momentos onde era aluna na formação de professores com momentos onde liderava seu grupo de alunos.

 

 

Sua criatividade foi acionada, principalmente ao encontrar uma solução para o espaço ocioso da escola, onde criaram um “Beco das Artes” no espaço escolar, conectando a experiência vivida pela professora e compartilhada com seus alunos – a visita ao Beco das Artes no bairro da Vila Madalena – com a oportunidade de desenvolver uma aula mais sinérgica e significativa para todos, solucionando de forma inovadora o problema coletivo com o espaço antes inutilizado da escola. A partir dessa experiência foi possível levar outros artistas da cena urbana à escola para conversarem com os alunos, ministrarem oficina de lambe-lambe e todos puderam intervir nos muros externos da escola, tornando o ambiente escolar singular. Nesta experiência a professora pode exercitar de forma ampla sua capacidade de comunicação, possibilitando o estabelecimento de parcerias com artistas e com instituições e tornando o projeto não uma ação isolada, mas conectada com outros fazeres e saberes para além dos muros da escola.

Vejam que não descrevi uma professora como a que a maioria das pessoas tem desenhado em sua lembrança mais remota. Estamos falando de uma educadora que está exercendo seu ofício conectada com seu tempo. E, neste sentido, sendo a escola um espaço com potencial de ser mais que um transmissor do conhecimento acumulado, mas com a possibilidade efetiva de ser um espaço produtor de cultura, fomentador da criatividade de seu público, que hoje se coloca ativamente na teia cultural e social, o profissional de educação também é um profissional da cultura, um gestor cultural.

 

Por outro lado, a cultura também está no centro do debate relacionado ao desenvolvimento, ao lado da economia, meio ambiente e desenvolvimento social desde a publicação da Convenção da Diversidade Cultural da Unesco, em 2005, que estabelece como prioridade internacional a proteção e a promoção das expressões culturais, “frutos da criatividade humana, portadoras de significados e vinculadas a identidades culturais”. Neste sentido, o gestor cultural, enquanto um profissional com perfil e atuação ainda em construção, deve entender a cultura como um bem simbólico capaz de gerar trabalho e renda, mas também capaz de potencializar a educação em seu aspecto amplo, ou seja, capital para o desenvolvimento humano. Neste sentido, o gestor cultural também é um profissional da educação, em educador. Vejam que não pretendo dizer que professor e gestor cultural sejam uma mesma profissão ou que ambos tenham a mesma função, longe disso, mas afinada com uma cultura de rede onde tudo está mais conectado do que isolado, o objetivo aqui é trazer para o diálogo a intersecção destes perfis para que o entendimento dessa complexidade possa tanto ampliar a necessária atuação gestora da cultura para o professor na escola, como contextualizar a importância de uma atuação menos mercantilizada e mais cidadã, promotora de desenvolvimento humano, para o gestor cultural.

http://www.institutochoquecultural.org.br

 

 

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